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Thiago Silva: ‘Dei a volta por cima’

Após tuberculose na Rússia e críticas em 2014, zagueiro da seleção brasileira sonha com o hexa e exalta Tite: ‘Ele me resgatou’

Quatro anos depois de ter ficado marcado na Copa do Mundo do Brasil e 13 anos após passar seis meses internado em um hospital em Moscou por causa de uma tuberculose, o zagueiro Thiago Silva tem pela frente novamente a disputa de um Mundial, e justamente na Rússia. A oportunidade perfeita para consolidar a volta por cima na carreira, segundo disse o defensor da seleção brasileira em entrevista em Paris.

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“Uma das piores fases da minha vida foi na Rússia, por causa da minha doença”, afirmou. Em 2005, Thiago Silva sofreu com o inverno russo, teve problemas respiratórios, contraiu uma grave tuberculose e ficou um ano sem jogar futebol, quando estava emprestado pelo Porto (Portugal) ao Dínamo de Moscou. Em 2014, apesar de não ter atuado na fatídica derrota de 7 a 1 para a Alemanha na semifinal da Copa, por estar suspenso, o então capitão deixou a competição com a imagem abalada. Foi acusado de ter falta de equilíbrio emocional, quando chorou antes dos pênaltis nas oitavas contra o Chile.

Depois disso, porém, apresentando a mesma qualidade que o levou à seleção brasileira desde os tempos de Fluminense, Milan e desde 2012 no Paris Saint-Germain, o zagueiro continuou jogando em alto nível na Europa, e, aos 33 anos, vai disputar a sua terceira Copa. Nesta terça, Thiago estará no amistoso contra a Alemanha, às 16h45 (horário de Brasília), em Berlim. Thiago Silva falou sobre seleção, PSG e também sobre a lesão do atacante Neymar, a principal esperança do Brasil no Mundial, que fraturou o quinto metatarso do pé direito no fim de fevereiro.

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https://www.youtube.com/watch?v=g1f-OmxJuFQ

De todas as críticas que você recebeu na Copa de 2014, qual foi a que mais te machucou? A que mais me chateou… Teve a situação do choro, muito citada. Principalmente porque foi depois de uma vitória, se fosse depois de uma derrota, talvez aceitássemos melhor. Às vezes uma equipe ganha e o jogador chora, porque deu a vida pelo time. E na minha situação parece que foi uma coisa planejada. As pessoas até hoje falam, com as redes sociais tudo tem uma amplitude maior. Isso me chateou. Escutei muito falarem que tomei cartão contra a Colômbia para ficar fora da semifinal contra Alemanha. Nem sabíamos com quem iríamos jogar… Qualquer jogador gosta de jogar uma semifinal, seja de Campeonato Carioca, Paulista, Francês, Italiano, principalmente num Mundial. Isso também me chateou. As pessoas que me fizeram dar a volta por cima foram todas que até hoje estão comigo, minha família, meus amigos, que são poucos nesses momentos. Não foi fácil, foi duro. Logo depois perdi meu padrasto, que foi o pilar de tudo para que hoje eu pudesse estar na seleção. Ele também estava chateado com essas notícias. E ver a família sofrendo é de partir o coração. Nós estamos mais acostumados com críticas e elogios, mas a família dificilmente está pronta para essa situação.

A Copa será na Rússia, onde você teve tuberculose quando jogou no Dínamo, em 2005. De alguma forma, isso representa uma oportunidade de triunfar em um lugar que teve problemas? Com certeza, porque uma das piores fases da minha vida foi na Rússia, em Moscou. Fiquei internado durante seis meses no hospital, sem poder fazer aquilo que eu mais amo, que é jogar futebol. Fiquei sem jogar um ano por causa da doença. No Mundial do Brasil fui supercriticado, a seleção eliminada daquela maneira, e ficamos marcados negativamente. Na Copa seguinte, a oportunidade de ainda estar jogando em alto nível, motivado, e no país em que passei um dos piores momentos da  carreira. Pensando no lado positivo, pode ser um motivo a mais para acreditar nesse título, de mostrar que dei a volta por cima. Acredito muito nesse grupo, nessa comissão técnica.

Por que você conseguiu dar a volta por cima na seleção e o David Luiz, seu parceiro de zaga em 2014, não fez o mesmo? Não consigo entender. Logo após a Copa, ele teve a transferência para o PSG, chegou bem, fez grandes jogos, principalmente na Champions. Mas poda acontecer de não se enquadrar nas ideias do treinador. É uma das coisas que posso citar, mas não tenho resposta do que aconteceu para que ele não tenha retornado à seleção. Tivemos um momento muito bom com o PSG, fomos campeões, comemoramos juntos. É muito difícil se manter na seleção, porque qualquer brecha é preenchida e quando menos espera ele está ali e pode não sair mais do time. É preciso estar preparado para dar a volta por cima. No Chelsea, essa ano era importante para ele estar jogando, mas  não está.

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Como é ser comandado pelo Tite? Ele é um treinador correto, simples, humilde, com muita vontade de ganhar. Nas conversas, ele passa emoção, a sensação dele. Estava fora da seleção e ele me resgatou. Ele me telefonou nas férias, perguntou se estava motivado para voltar à seleção. Respondi: ‘Claro, professor, estou disposto, inclusive já vou começar a me preparar.’ Estou de volta graças a ele e à comissão técnica por acreditarem no meu trabalho. Sou suspeito para falar dele, pois me deu todo o apoio para voltar.

Como se sente na reserva? O entrosamento com Daniel Alves e Marquinhos, todos do PSG, pode ser benéfico para a seleção? Em termos de jogar juntos pode ser, mas jogadores como o Miranda e o Marcelo, que jogam em grandes equipes, têm feito boas apresentações, principalmente na seleção. Não é isso que vai mudar a cabeça do Tite em relação à equipe titular. Na seleção é muito difícil dizer quem é titular e quem é reserva. Acredito que é uma dificuldade enorme para ele escolher os 11 que vão jogar. Todas as posições estão abertas, e claro que ele tem preferências. Não é porque tenho 33 anos que serei titular. Procuro estar presente, motivando a equipe, para que tenhamos um grupo forte. Pouco importa quem joga e quem não joga.

Qual a sua primeira lembrança de uma Copa do Mundo? A Copa de 94 ficou na minha cabeça. Eu morava em uma comunidade bem pobre, e me lembro dos pênaltis contra a Itália. Quando o Baggio chutou para cima, saímos correndo para a rua, “é campeão, é campeão”, e com una bola debaixo do braço, começamos a jogar. É motivo de grande orgulho estar na seleção brasileira e ter o Taffarel como preparador de goleiros. A voz do Galvão Bueno gritando “sai que é sua Taffarel!” chega a arrepiar. Não importa a idade, se joga ou não, mas aquela narração ficou marcada.

 

Fora da Champions é hora de pensar no fisico? O momento é esse, porque sem preparação não se chega a lugar nenhum. O descanso é importante, o repouso, a alimentação, e a noite bem dormida. Tudo isso o deixa melhor fisicamente no final de temporada. A Copa é no fim da temporada da Europa e é difícil chegar tão bem. Se a lesão do Neymar tivesse acontecido um mês depois, ele estaria fora da Copa. Disse a ele, para ficar bem de cabeça, pensar daqui para a frente, porque já perdemos a Champions, e não adiantava ficar triste por não ter jogado. Temos conversado bastante, ele é um moleque do bem, tem uma cabeça muito boa, está com a família  para fazer essa recuperação, sabe que não pode colocar o pé no chão durante esse período de cicatrização da lesão. Tenho certeza que o foco dele agora é o Mundial, não tenho dúvida que ele vai estar super bem preparado, apesar de ter somente um mês de preparação para ele.

O que o PSG tem de fazer na próxima temporada com foco na Champions? Se eu tivesse essa receita eu acho que eu já teria ganho a Champions. Há seis anos estou aqui, seis anos que batemos na trave. Chegamos às quartas, e dois anos seguidos saímos nas oitavas, diante do Barcelona e do Real Madrid, duas das principais equipes para ganhar a competição. Temos de trabalhar, com pensamento positivo, por mais que seja difícil. É continuar acreditando. Não creio que se deve mudar tudo porque fomos eliminados, não é por aí. É preciso manter uma espinha dorsal que vai dar respaldo para o ano seguinte. Tem de mudar o mínimo.

Você não acha que Neymar se expões demais? A preocupação sempre existe, mas isso é uma coisa muito pessoal. Às vezes é de partir o coração tantas notícias, tanta coisa que não é verdade. É muito peso, muita responsabilidade, que tem de ser compartilhada. Na seleção, o Tite soube fazer isso, por exemplo a alternância de capitães deixa o grupo muito mais leve, não fica pesado só para um. Neymar já é uma estrela, e com a faixa de capitão tudo estava centrado nele.

O técnico da seleção brasileira, Tite
Thiago Silva ganhou a confiança do técnico Tite Saeed Khan/AFP
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